
Concordância é a relação pela qual uma palavra ajusta sua forma a outra. Na concordância nominal, artigos, pronomes, numerais, adjetivos e predicativos podem variar de acordo com o núcleo nominal. Na concordância verbal, o verbo se ajusta ao núcleo do sujeito em número e pessoa.
Ideia central: não concorde com a palavra mais próxima. Localize primeiro o termo que controla a relação.
O que você precisa saber
Compare:
- A proposta revisada chegou.
- As propostas revisadas chegaram.
Ao passar o núcleo proposta para o plural, mudam as formas que dependem dele no grupo nominal — a, revisada — e muda o verbo cujo sujeito tem esse núcleo — chegou. A relação continua a mesma; as marcas de número tornam essa relação visível.
Este tópico reúne concordância nominal e verbal porque ambas exigem o mesmo raciocínio: encontrar o controlador, delimitar o alcance da relação e só então escolher a flexão. Ele pressupõe o reconhecimento de Substantivo, Adjetivo, Pronome e Verbo.
O foco é a norma-padrão usada em textos monitorados e em questões de prova. A língua falada apresenta variação legítima, mas uma questão normativa normalmente pede a relação prevista no padrão formal e deve ser resolvida a partir da estrutura apresentada.
Conceitos fundamentais

Controlador e termo dependente
Em vez de decorar listas isoladas, pense em duas funções:
- controlador: termo cujas propriedades orientam a concordância;
- dependente: termo que manifesta a flexão exigida pela relação.
Em aquelas duas propostas novas, o núcleo nominal é propostas. O artigo, o pronome demonstrativo, o numeral e o adjetivo pertencem ao grupo e assumem formas compatíveis. Em as propostas chegaram, o núcleo do sujeito é propostas e o verbo vai ao plural.
O controlador nem sempre é a palavra imediatamente anterior:
A relação entre os documentos permanece clara.
O sujeito é a relação entre os documentos. Seu núcleo é relação, no singular. Documentos pertence ao complemento introduzido por entre e não controla o verbo. O plural permanecem seria atração indevida pelo termo mais próximo.
Concordância nominal
A regra geral é: as formas variáveis relacionadas a um nome concordam com ele em gênero e número.
- o relatório completo;
- a planilha completa;
- os relatórios completos;
- as planilhas completas.
A relação pode ocorrer dentro do grupo nominal ou por meio de predicativo:
- As servidoras atentas revisaram o texto.
- As servidoras permaneceram atentas.
- Consideraram as planilhas corretas.
O predicativo concorda com o termo ao qual atribui uma propriedade. Antes de flexioná-lo, descubra de quem se declara essa propriedade.
Concordância verbal
A regra geral é: o verbo concorda em número e pessoa com o sujeito.
- Eu revisei.
- Nós revisamos.
- O candidato chegou.
- Os candidatos chegaram.
Pessoa do discurso e forma gramatical não são sempre idênticas. Pronomes de tratamento e você dirigem-se ao interlocutor, mas exigem verbo de terceira pessoa:
- Você recebeu o comprovante?
- Vossa Excelência decidirá o recurso.
Se houver predicativo referente à pessoa tratada, o gênero acompanha o referente: Senhora Ministra, Vossa Excelência está convidada.
Como identificar ou aplicar

1. Localize a forma que precisa ser ajustada
É verbo? Procure o sujeito. É artigo, pronome, numeral, adjetivo ou predicativo? Procure o nome ao qual a forma se refere.
2. Delimite o grupo e encontre o núcleo
Reduza temporariamente expansões e termos intercalados:
A divulgação dos resultados preliminares ocorrerá amanhã.
Retirando dos resultados preliminares, resta a divulgação ocorrerá. O núcleo singular fica evidente.
3. Faça um teste de número ou gênero
Troque o controlador e observe quais formas precisam acompanhá-lo:
- o documento anexado → as certidões anexadas;
- a equipe decidiu → as equipes decidiram.
Esse teste revela a rede de dependências sem depender apenas da intuição sonora.
4. Verifique se há uma regra especial
Pergunte:
- o sujeito é composto?
- há expressão partitiva ou percentual?
- o verbo é impessoal?
- existe pronome relativo?
- a construção contém
se? - o adjetivo se refere a mais de um núcleo?
- a palavra analisada é adjetivo variável ou advérbio invariável?
5. Releia estrutura e sentido
Algumas alternativas são formalmente possíveis, mas destacam controladores diferentes. Em a maioria dos candidatos chegou/chegaram, o singular realça o conjunto; o plural, seus integrantes. Quando a gramática admite as duas formas, a questão precisa oferecer informação estrutural ou semântica que favoreça uma delas.
Concordância nominal na prática
Um adjetivo e mais de um substantivo
Com adjetivo depois de substantivos de gêneros diferentes, o masculino plural é a solução abrangente tradicional:
Foram revisados o relatório e a planilha.
Em certas construções, também ocorre concordância com o termo mais próximo, sobretudo quando a relação é inequívoca:
O órgão enviou relatórios e planilhas revisadas.
Aqui, revisadas liga-se mais naturalmente apenas a planilhas. Se a intenção for caracterizar ambos, relatórios e planilhas revisados elimina a dúvida no padrão tradicional. Clareza é parte da correção: quando duas leituras competem, reescrever costuma ser melhor que explorar o limite da regra.
Com adjetivo antes de vários nomes, é comum a concordância com o mais próximo:
- nova planilha e relatório;
- novo relatório e planilha.
Nomes próprios e designações de parentesco coordenados podem favorecer o plural: os talentosos Ana e Luís; as dedicadas mãe e filha.
Predicativo de sujeito composto
Quando a propriedade recai sobre todos os núcleos, o predicativo vai ao plural:
- O relatório e a planilha estavam corretos.
- A planilha e a certidão estavam corretas.
Se os núcleos têm gêneros diferentes, o masculino plural é a forma não marcada na tradição normativa. Reformulações podem evitar que essa convenção apague informação relevante: A planilha e o relatório estavam sem erros.
Palavras que variam e palavras que não variam
O contexto e a classe determinam a flexão:
| Forma | Uso variável | Uso invariável |
|---|---|---|
meio | meia página, numeral | meio cansadas, advérbio = um pouco |
bastante | bastantes argumentos = muitos | argumentos bastante claros = muito |
só | eles ficaram sós = sozinhos | só eles ficaram = somente |
mesmo | elas mesmas revisaram = próprias | mesmo cansadas, revisaram = ainda que |
anexo | seguem anexas as planilhas | em anexo é locução invariável |
Obrigado concorda com quem agradece: uma mulher diz obrigada; um homem, obrigado. Quite concorda com o referente: o servidor está quite; os servidores estão quites.
É proibido, é necessário, é bom
Quando o substantivo aparece em sentido geral, sem determinante, a expressão costuma permanecer no masculino singular:
- É proibido entrada.
- É necessário cautela.
- Água é bom para hidratar.
Com determinante, a concordância torna-se visível:
- É proibida a entrada.
- É necessária muita cautela.
- A água é boa para hidratar.
Não aplique a regra por uma palavra isolada; observe se o nome está determinado e como a construção foi organizada.
Concordância verbal na prática
Sujeito simples distante do verbo
Termos intercalados não alteram o núcleo:
A lista de documentos exigidos foi atualizada.
O núcleo é lista. O plural documentos exigidos pertence a outro grupo. Uma técnica eficiente é substituir todo o sujeito por um pronome: Ela foi atualizada.
Sujeito composto
Quando o sujeito composto aparece antes do verbo, a regra geral pede plural:
A clareza e a precisão orientam a redação.
Quando aparece depois, admitem-se o plural e, em contextos previstos pela tradição, a concordância com o núcleo mais próximo:
- Chegaram o recurso e os anexos.
- Chegou o recurso e os anexos.
O plural é a escolha mais transparente quando os dois núcleos praticam a ação. A concordância com o mais próximo não autoriza ignorar um sujeito composto anteposto.
Com pessoas gramaticais diferentes, a primeira pessoa prevalece: Eu e os colegas revisamos. No português brasileiro, construções com tu combinado a terceira pessoa frequentemente aparecem na terceira pessoa do plural, mas uma prova pode adotar a hierarquia tradicional conforme a variedade e a norma indicada.
Núcleos ligados por ou, nem e com
Com ou, o sentido decide:
- exclusão: O diretor ou a coordenadora assinará o documento — apenas um;
- inclusão: O diretor ou a coordenadora poderão apresentar sugestões — ambos podem fazê-lo.
Com nem, o plural é comum quando todos os núcleos são negados: Nem o prazo nem o conteúdo foram alterados. Expressões fixas como nem um nem outro tendem ao singular.
Com com, diferencie adição de companhia:
- A coordenadora com os revisores aprovaram o texto —
comequivale ae; - A coordenadora, com os revisores, aprovou o texto — o trecho intercalado expressa companhia; o núcleo é coordenadora.
Pontuação e sentido ajudam a delimitar a estrutura, mas não substituem a análise.
Coletivos e expressões partitivas
Um coletivo singular normalmente controla verbo singular:
A comissão decidiu.
Em expressões como a maioria de, grande parte de, metade de, seguidas de termo plural, singular e plural podem ser aceitos:
- A maioria dos inscritos compareceu — foco no conjunto;
- A maioria dos inscritos compareceram — foco nos indivíduos.
Sem complemento plural, o verbo concorda com o partitivo: A maioria compareceu. Evite tratar toda ideia de pluralidade como sujeito gramatical plural.
Porcentagens e quantidades aproximadas
Com porcentagem, observe o numeral e o termo que a especifica:
- Um por cento dos inscritos faltou/faltaram — há possibilidade de concordância conforme o elemento destacado em descrições normativas;
- Trinta por cento dos inscritos faltaram — numeral e especificador estão no plural;
- Este 1% dos inscritos definirá o resultado — o determinante singular fixa a concordância com o percentual.
Expressões como cerca de, mais de, menos de não são o núcleo; o verbo acompanha a quantidade: Cerca de vinte candidatos chegaram; Mais de um candidato chegou. Há casos especiais de reciprocidade e repetição com mais de um, mas não se deve transformar a exceção em regra geral.
Pronome relativo que e quem
Com que sujeito, o verbo concorda com o antecedente:
- Fui eu que redigi o parecer.
- Fomos nós que redigimos o parecer.
Com quem, a terceira pessoa do singular é a solução tradicional, e também se registra concordância com o antecedente:
- Fui eu quem redigiu o parecer.
- Fui eu quem redigi o parecer.
Em um dos que, o plural é preferido quando o relativo retoma o conjunto: Ela é uma das candidatas que apresentaram recurso. Algumas tradições admitem o singular para destacar o indivíduo; a interpretação precisa ser explicitada.
Verbos impessoais
Verbo impessoal não tem sujeito e permanece na terceira pessoa do singular.
Haver com sentido de existir ou de tempo decorrido:
- Havia dúvidas no enunciado.
- Há três meses começou o curso.
- Deve haver alternativas corretas.
O auxiliar também fica no singular: deve haver, não devem haver. Quando haver é auxiliar de outro verbo, comporta-se normalmente: Os candidatos haviam estudado.
Fazer indicando tempo decorrido ou condição meteorológica:
- Faz dois anos que estudo.
- Vai fazer três meses desde a inscrição.
- Fez dias muito frios.
Não confunda com usos pessoais: Os alunos fizeram duas revisões.
O se e a concordância

Há dois padrões essenciais.
Voz passiva sintética: o verbo concorda
Com verbo transitivo direto ou direto e indireto, o termo paciente pode ser sujeito:
- Publicou-se o edital → O edital foi publicado;
- Publicaram-se os editais → Os editais foram publicados;
- Concederam-se bolsas aos estudantes → Bolsas foram concedidas aos estudantes.
Se a transformação em passiva analítica funciona e preserva a relação, o termo paciente controla a concordância.
Índice de indeterminação: o verbo fica no singular
Com verbo transitivo indireto, intransitivo ou de ligação, o se indetermina o sujeito e o verbo fica na terceira pessoa do singular:
- Precisa-se de revisores.
- Confia-se nos resultados.
- Vive-se bem naquela cidade.
- Era-se mais cauteloso naquele período.
Em precisa-se de revisores, de revisores é complemento preposicionado, não sujeito. A forma precisam-se de revisores mistura os dois padrões.
Exemplos comentados
Exemplo 1 — termo próximo não é núcleo
A sequência de atividades propostas exige atenção.
O sujeito inteiro é a sequência de atividades propostas. O núcleo é sequência. Por isso, exige fica no singular. Propostas concorda com atividades, não com sequência.
Exemplo 2 — mudança em rede
Aquela questão complexa foi anulada.
No plural: Aquelas questões complexas foram anuladas. A alteração de questão modifica pronome, adjetivo, auxiliar e particípio. O exemplo mostra concordância nominal dentro do sujeito e do predicativo, além da verbal.
Exemplo 3 — sujeito posposto
Faltam ao processo duas assinaturas.
Pergunte: o que falta? Duas assinaturas. O sujeito está depois do verbo, mas continua plural. A posição não transforma ao processo em controlador.
Exemplo 4 — verbo impessoal
Podem haver mudanças no cronograma.
Na norma-padrão, a forma adequada é pode haver mudanças. Haver equivale a existir e é impessoal; o auxiliar permanece no singular. Compare podem existir mudanças, pois existir tem sujeito plural.
Exemplo 5 — se
Analisa-se os pedidos em ordem cronológica.
Analisar é transitivo direto e os pedidos pode ser sujeito paciente: Os pedidos são analisados. A concordância padrão é Analisam-se os pedidos. Em Precisa-se de documentos, a preposição impede a mesma transformação e o singular permanece.
Exemplo 6 — palavra variável ou invariável
As candidatas estavam meias preocupadas.
No sentido de um pouco, meio é advérbio e não varia: meio preocupadas. Em meias páginas, é numeral e acompanha páginas.
Como aparece em provas
Questões de concordância costumam exigir operações, não apenas a repetição de uma regra:
- localizar o sujeito em ordem inversa ou separado do verbo;
- alterar singular para plural e ajustar toda a cadeia;
- substituir um núcleo e avaliar quais formas mudam;
- comparar duas concordâncias admitidas e seus focos;
- reconhecer verbos impessoais em locuções;
- distinguir passiva sintética de sujeito indeterminado;
- verificar se a correção gramatical foi preservada em uma reescrita.
Em reescritas, não confira apenas o verbo destacado. Uma mudança de número pode alcançar determinantes, adjetivos, pronomes, particípios e outros verbos relacionados ao mesmo referente.
Um roteiro curto ajuda:
- circule a forma avaliada;
- sublinhe o controlador;
- risque mentalmente expansões intercaladas;
- teste singular/plural;
- procure regra especial;
- releia o sentido da alternativa completa.
Pegadinhas frequentes
Concordar por proximidade
Em o conjunto de medidas foi aprovado, medidas está mais perto, mas conjunto é o núcleo. Proximidade é indício fraco; dependência sintática decide.
Confundir ideia plural com forma plural
Equipe, multidão, comissão designam vários seres, mas são substantivos singulares. A concordância neutra parte da forma do núcleo, sem ignorar construções especiais documentadas.
Colocar todo haver no singular
Somente o haver impessoal, no sentido de existir ou tempo decorrido, segue essa regra. Em os candidatos haviam chegado, ele é auxiliar e concorda normalmente.
Manter todo verbo com se no singular
Se houver sujeito paciente, o verbo concorda: vendem-se livros. Com complemento preposicionado e sujeito indeterminado, fica no singular: precisa-se de livros.
Flexionar advérbio como adjetivo
Meio, bastante, só e mesmo podem pertencer a classes diferentes. Descubra o sentido e a função antes de flexionar.
Tratar possibilidade como obrigação
Partitivos, alguns relativos e sujeito composto posposto podem admitir mais de uma forma. Uma alternativa possível não se torna automaticamente a única correta. Leia o comando: ele pode pedir correção, preferência, manutenção de sentido ou justificativa.
Separar concordância de clareza
Uma construção no limite da regra pode permanecer ambígua. Em texto próprio, prefira reescrever: em vez de relatórios e planilhas revisadas quando ambos foram revisados, use relatórios revisados e planilhas revisadas ou documentos revisados.
Resumo para revisão
- Concordância é relação entre controlador e termo dependente.
- Nominal: gênero e número dentro do grupo nominal ou no predicativo.
- Verbal: número e pessoa entre sujeito e verbo.
- Núcleo controla; termo próximo pode ser apenas complemento.
- Sujeito composto anteposto normalmente leva o verbo ao plural.
- Partitivos podem admitir singular ou plural conforme o foco e a estrutura.
Haver= existir/tempo efazer= tempo são impessoais.- Na passiva com
se, o verbo concorda com o sujeito paciente. - Com
seindeterminador, o verbo fica na terceira pessoa do singular. - Classe e sentido decidem se meio, bastante, só e mesmo variam.
- Quando houver mais de uma forma aceita, explique o controlador e o efeito de foco.
Próximos passos
Retome Verbo para revisar pessoa, número, vozes e locuções; Substantivo e Adjetivo para consolidar os núcleos e dependentes nominais; Pronome para pessoas do discurso e tratamentos; e Numeral para estruturas quantitativas.
Avance para Regência, que não trata de ajustar flexões, mas de compreender como verbos e nomes selecionam complementos e preposições.
Referências
- Manual de Redação — Câmara dos Deputados.
- Manual de Redação Oficial — Tribunal de Contas do Distrito Federal.
- Concordância verbal — Manual de Comunicação do Senado Federal.
- Concordância verbal e nominal — Secretaria Municipal de Educação de Goiânia.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.