
Regência é a relação pela qual um verbo ou um nome determina como seu complemento se liga a ele. Essa ligação pode ocorrer sem preposição — analisar o recurso — ou com uma preposição selecionada pelo regente — obedecer ao edital, favorável ao recurso.
Ideia central: não escolha a preposição porque ela “soa bem”. Identifique o regente, o sentido ativado e o complemento que completa esse sentido.
O que você precisa saber
Compare:
- O candidato aspirou o ar lentamente.
- O candidato aspirava ao cargo.
No primeiro caso, aspirar significa sorver, respirar e liga-se diretamente a o ar. No segundo, significa desejar, pretender e seleciona a preposição a. Não houve apenas troca de preposição: houve mudança de sentido e de estrutura.
Esse é o ponto que une a regência verbal e a nominal. Certas palavras abrem posições para completar seu significado, e cada acepção pode organizar essas posições de modo diferente. Por isso, estudar regência exige Verbo, Preposição e leitura contextual.
Conceitos fundamentais

Termo regente e termo regido
- termo regente: palavra que seleciona ou admite o complemento;
- termo regido: complemento ligado ao regente, com ou sem preposição.
Em necessitamos de planejamento, o verbo necessitar é regente; de planejamento é o termo regido. Em necessidade de planejamento, a relação parte do substantivo necessidade: a regência é nominal.
Regência não significa que toda palavra seguinte seja “comandada” pelo verbo. Compare:
- O estudante depende de orientação — o complemento integra o sentido de depender;
- O estudante revisou à noite — à noite situa a revisão no tempo, mas revisar não seleciona essa circunstância.
O primeiro grupo é exigido ou licenciado pela construção do verbo; o segundo é um adjunto circunstancial mais livre. A possibilidade de omissão, sozinha, não resolve tudo: complementos recuperáveis pelo contexto também podem ficar implícitos.
Regência verbal
Na regência verbal, o regente é um verbo. Conforme a acepção e a construção, ele pode ocorrer:
- sem complemento: O bebê dormiu;
- com complemento direto: A banca publicou o resultado;
- com complemento preposicionado: Os candidatos recorreram da decisão;
- com dois complementos: A comissão informou o resultado aos candidatos.
Esses padrões se relacionam à transitividade, mas não são rótulos eternos do verbo. Proceder pode significar agir (procedeu corretamente), ter fundamento (a reclamação procede) ou dar início (procedeu à leitura). É a construção concreta que deve ser classificada.
Regência nominal
Na regência nominal, o regente é substantivo, adjetivo ou, em certas descrições, advérbio derivado:
- respeito às regras;
- favorável ao pedido;
- independentemente do resultado.
O complemento nominal normalmente vem preposicionado. Muitos nomes conservam uma relação próxima à do verbo correspondente: necessitar de apoio → necessidade de apoio; obedecer às normas → obediência às normas. A correspondência ajuda, mas não substitui a consulta, pois o uso de nomes pode admitir mais de uma preposição com diferenças de construção ou sentido.
Regência não é concordância
Em Concordância, uma forma ajusta gênero, número ou pessoa a seu controlador: as propostas chegaram. Em regência, decide-se a forma da ligação: concordar com a proposta. Uma questão pode explorar ambas na mesma frase, mas são mecanismos distintos.
Método de análise

1. Localize o elemento cujo sentido está sendo completado
É verbo, substantivo, adjetivo ou advérbio? Em confiança nos dados, a relação parte de confiança, não de um verbo oculto inventado pelo leitor.
2. Defina o sentido no contexto
Antes de perguntar “qual preposição?”, substitua o regente por uma paráfrase. Visar o documento equivale a pôr visto; visar ao cargo equivale a almejar. A acepção vem antes da regra.
3. Delimite o complemento
Encontre o grupo completo e seu núcleo. Em obedecer às novas regras do edital, o complemento é às novas regras do edital; seu núcleo é regras. Não confunda a preposição exigida por obedecer com de, que introduz do edital dentro do grupo nominal.
4. Verifique se a ligação é direta ou preposicionada
Se houver preposição, identifique sua origem. Ela foi selecionada pelo regente, pertence a uma locução ou introduz uma circunstância livre? Desfaça contrações: ao = a + o, das = de + as, naquele = em + aquele.
5. Teste substituições
Troque o complemento por um pronome, transforme-o em pergunta ou construa uma oração relativa:
- Obedecemos às regras → A que obedecemos?
- Estas são as regras a que obedecemos.
Se a preposição desaparece diante do relativo, a estrutura ficou incompleta no padrão formal.
Regência verbal na prática
Assistir
- ver, presenciar: tradicionalmente seleciona
a— assistimos ao debate; - prestar assistência: construção direta — o médico assistiu o paciente;
- caber, competir: seleciona
a— assiste ao candidato o direito de recorrer; - residir: seleciona
em— assistia em Recife, uso hoje pouco frequente.
Na acepção de ver, o uso direto é corrente no português brasileiro. Em prova explicitamente normativa, a construção com a costuma ser a esperada. Essa diferença deve ser tratada como contraste de registro, não como ausência de gramática na fala.
Aspirar
- sorver, inalar: direto — aspirou a fumaça;
- desejar:
a— aspira à estabilidade.
Visar
- mirar ou pôr visto: direto — visou o alvo; visou o documento;
- ter como objetivo: na tradição normativa,
a— a medida visa à transparência.
O uso direto na acepção de ter por objetivo é amplamente encontrado. Em textos monitorados e provas conservadoras, convém reconhecer a forma preposicionada e observar o padrão adotado pela banca ou instituição.
Implicar
- acarretar, produzir como consequência: direto — a mudança implica novos custos;
- envolver alguém em algo: direto +
em— implicaram o servidor no caso; - ter antipatia, provocar:
com— o colega implicava com todos.
Evite inserir em automaticamente na acepção de acarretar em exercícios normativos: implica mudanças é a construção tradicionalmente recomendada.
Preferir
O padrão é preferir uma coisa a outra:
Prefiro revisão diária a estudo acumulado.
Expressões como preferir mais, preferir antes e preferir X do que Y são rejeitadas em avaliações normativas porque preferir já contém a ideia de escolha comparativa. Na escrita real, a construção com do que ocorre; em prova de norma-padrão, reconheça o paralelismo com a.
Obedecer e desobedecer
Selecionam a:
- obedecer ao regulamento;
- desobedecer às instruções.
Na voz passiva, construções como o regulamento foi obedecido são registradas na língua formal, embora a análise tradicional parta de complemento preposicionado na voz ativa. Não use um teste isolado como regra universal.
Informar, avisar e comunicar
Verbos de transmissão frequentemente admitem organizações diferentes, desde que não se misturem os esquemas:
- A banca informou o resultado aos candidatos;
- A banca informou os candidatos do resultado;
- A banca comunicou a decisão aos candidatos.
O problema surge ao combinar pedaços de estruturas distintas sem sustentação. Identifique quem recebe a informação e qual é a informação antes de montar a frase.
Pagar, perdoar e agradecer
No padrão tradicional, a coisa tende a ser complemento direto e a pessoa, indireto:
- pagou a taxa ao órgão;
- perdoou o erro ao candidato;
- agradeceu o apoio à equipe.
Quando apenas a pessoa é expressa: agradeceu aos professores. O sentido e a natureza do complemento orientam a estrutura.
Chegar e ir
Na indicação de destino, a norma formal tradicional favorece a: chegar ao local, ir à biblioteca. Em é muito frequente no português brasileiro coloquial. Já a permanência seleciona naturalmente em: ficar na biblioteca. Não transforme a preferência normativa em afirmação de que uma variedade espontânea “não tem regras”.
Lembrar e esquecer
Há construções diferentes:
- sem pronome: lembrei o compromisso; esqueci o documento;
- pronominal: lembrei-me do compromisso; esqueci-me do documento.
Evite misturar os padrões em exercícios normativos, como lembrei do compromisso quando a questão exige a construção tradicional. Registros contemporâneos podem apresentar outras organizações.
Simpatizar e antipatizar
Selecionam com e não são tradicionalmente pronominais:
- simpatizei com a proposta;
- antipatizou com o método.
Em questões normativas, simpatizar-se com costuma ser marcado como inadequado.
Quando a regência muda o sentido

Não memorize apenas “verbo + preposição”. Construa uma ficha por acepção:
| Regente | Construção | Sentido |
|---|---|---|
| assistir | assistir ao evento | presenciar |
| assistir | assistir o paciente | prestar auxílio |
| visar | visar ao cargo | almejar |
| visar | visar o documento | pôr visto |
| implicar | implicar custos | acarretar |
| implicar | implicar com alguém | provocar, antipatizar |
| proceder | proceder à análise | dar início |
| proceder | a alegação procede | ter fundamento |
Esse formato reduz dois erros: aplicar uma regência correta à acepção errada e considerar sinônimas frases cuja preposição altera a leitura.
Regência nominal na prática
Nomes também selecionam preposições. Alguns padrões frequentes:
- acessível a todos;
- alheio a críticas;
- aversão a/por mudanças;
- capaz de resolver;
- compatível com o cargo;
- favorável ao recurso;
- fiel aos princípios;
- necessidade de revisão;
- preferível a outra solução;
- respeito às/pelas diferenças, conforme a construção e o sentido;
- útil ao/para o estudante, conforme a relação pretendida.
Listas são instrumentos de consulta, não explicações completas. Alguns nomes admitem mais de uma preposição, e a escolha pode refletir acepção, complemento, tradição de uso ou nuance. Dicionários de regência e exemplos confiáveis ajudam quando a construção não é previsível.
Paralelismo com nomes
Se dois nomes exigem preposições diferentes, não use um único complemento como se a regência fosse idêntica:
Havia interesse pelo projeto e confiança no projeto.
Uma forma concisa pode repetir apenas o necessário: interesse pelo projeto e confiança nele. O objetivo é deixar cada vínculo recuperável.
Regência e pronomes relativos
O pronome relativo ocupa uma função dentro da oração que introduz. A preposição exigida pelo verbo ou nome deve aparecer antes dele:
- Esta é a regra a que obedecemos. — obedecer
a; - O tema de que precisamos será revisto. — precisar
de; - A cidade em que moro é pequena. — morar
em; - O cargo a que aspiro exige preparo. — aspirar
a; - A proposta com que concordamos foi aprovada. — concordar
com.
Use duas frases para reconstruir a relação:
- Precisamos do tema.
- O tema será revisto.
- O tema de que precisamos será revisto.
Esse procedimento é mais seguro que escolher que, onde ou cujo apenas pelo antecedente. Onde relaciona-se propriamente a lugar; e cujo estabelece posse, concorda com o elemento seguinte e não aceita artigo: o autor a cujas obras aludimos.
Regência, crase e pronomes
A regência responde se existe uma preposição a; a crase exige ainda um segundo a, geralmente artigo ou início de demonstrativo:
- obedecer a + as regras → obedecer às regras;
- visar a + aquele cargo → visar àquele cargo;
- assistir a + o debate → assistir ao debate, sem acento grave.
Portanto, não decida a crase apenas porque o verbo “pede a”. O mecanismo completo será tratado em Crase quando essa página for publicada.
Com pronomes pessoais, a forma também depende da função: a decisão agradou a mim, não a eu. Já diante de infinitivo com sujeito próprio: trouxe o texto para eu revisar. Retome Pronome para separar complemento e sujeito do infinitivo.
Exemplos comentados
“O projeto visa a redução de custos”
Se visar significa ter por objetivo, a norma tradicional seleciona a. Como redução admite artigo feminino, a redação monitorada tende a ser visa à redução. A análise une regência e crase, mas são duas decisões sucessivas.
“Este é o relatório que o servidor se referiu”
Quem se refere, refere-se a algo. O relativo precisa conservar a preposição: Este é o relatório a que o servidor se referiu ou ao qual o servidor se referiu.
“Assisti o candidato durante a prova”
A frase pode estar correta se assistir significa prestar assistência ao candidato. Se a intenção é dizer que alguém o observou participar, uma questão normativa pode exigir assisti ao candidato. Sem contexto, alterar a preposição pode alterar a acepção.
“Prefiro estudar do que improvisar”
Em prova de norma-padrão: Prefiro estudar a improvisar. Os dois infinitivos devem ocupar posições paralelas. Não acrescente mais, pois a comparação já faz parte do verbo.
“A medida implicará em atraso”
Na acepção de acarretar, a construção normativa tradicional é direta: A medida implicará atraso. Não confunda com implicar alguém em um delito nem com implicar com alguém.
Como aparece em provas
As questões costumam pedir que você:
- encontre uma preposição ausente ou indevida;
- compare a regência após substituir um verbo por aparente sinônimo;
- identifique mudança de sentido causada pela construção;
- corrija a preposição antes de pronome relativo;
- avalie regência e crase na mesma expressão;
- preserve paralelismo ao coordenar complementos;
- reconheça diferenças entre norma formal e uso brasileiro corrente.
Ao substituir um verbo, refaça a estrutura inteira. Desejar o cargo não autoriza aspirar o cargo na prescrição tradicional; sinônimos aproximados não necessariamente compartilham regência.
Pegadinhas frequentes
Decorar o verbo sem a acepção
Um mesmo verbo pode ter várias construções. Registre sempre verbo + sentido + exemplo, nunca apenas assistir pede a.
Achar que toda preposição vem do verbo
Em analisou o recurso com cuidado, com introduz modo; não é exigido por analisar. Delimite primeiro o complemento central.
Apagar a preposição diante de relativo
Na fala, a regra que obedecemos é encontrada; em escrita formal monitorada, reconstrua obedecemos à regra e escreva a regra a que obedecemos.
Usar crase como teste de regência
Crase não ocorre diante de palavra masculina, mas a preposição pode existir: assistir ao filme. Primeiro encontre a preposição; depois investigue artigo ou demonstrativo.
Coordenar regências diferentes como se fossem iguais
Gostar e precisar de planejamento pode funcionar porque ambos selecionam de. Já gostar e executar o projeto pede reconstrução clara, pois gostar de e executar não compartilham o mesmo vínculo.
Tratar variação como erro absoluto
Algumas construções formais convivem com usos coloquiais estáveis e outras mudam ao longo do tempo. Em prova, observe a norma solicitada; em análise linguística, descreva o registro sem caricaturá-lo.
Resumo para revisão
- Regência liga um verbo ou nome a seu complemento.
- O sentido do regente vem antes da escolha da preposição.
- A ligação pode ser direta, preposicionada ou envolver dois complementos.
- Transitividade pertence à construção, não a uma etiqueta imutável do verbo.
- Regência nominal parte de substantivo, adjetivo ou forma equivalente.
- Preposição circunstancial não deve ser confundida com preposição selecionada.
- Assistir, aspirar, visar, implicar e proceder mudam de construção conforme o sentido.
- Preferir organiza a comparação com
ana norma-padrão. - A preposição exigida deve acompanhar o pronome relativo.
- Regência fornece a preposição; crase exige verificar também artigo ou demonstrativo.
- Substituir um verbo exige reconstruir seus complementos.
- Variação de registro deve ser reconhecida, especialmente em contraste com provas normativas.
Próximos passos
Retome Verbo para transitividade e acepções, Preposição para relações e contrações, Pronome para relativos e formas pessoais e Concordância para não confundir seleção com flexão.
Na sequência, Colocação pronominal mostra onde posicionar pronomes átonos, enquanto Crase completa o diagnóstico iniciado aqui para as construções com preposição a.
Referências
- Manual de Redação — Câmara dos Deputados.
- Regência nominal — Manual de Comunicação do Senado Federal.
- Os relativos e as preposições — Academia Brasileira de Letras.
- EF09LP07 — Currículo do Espírito Santo.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.