
O substantivo é a classe de palavras que pode funcionar como núcleo de um grupo nominal e nomear ou apresentar entidades que tratamos como pessoas, animais, lugares, objetos, instituições, ações, estados, qualidades, sentimentos e conceitos. Essa definição é mais segura do que dizer apenas que substantivo é “a palavra que dá nome às coisas”, porque chegada, coragem e silêncio também são substantivos, embora não designem objetos concretos.
Ideia central: procure o núcleo em torno do qual determinantes, quantificadores e caracterizadores se organizam. Depois use forma, função e sentido para confirmar a análise.
O que você precisa saber
Em aqueles dois relatórios detalhados, a palavra relatórios é o núcleo do grupo nominal:
- aqueles situa os relatórios no contexto;
- dois informa a quantidade;
- detalhados atribui uma característica;
- relatórios é o elemento central ao qual os demais se ligam.
O substantivo pode vir sem artigo: Relatórios chegaram ontem. Também pode aparecer oculto em uma coordenação ou ser substituído por um pronome. Portanto, encontrar o, a, um, uma ajuda, mas não é condição obrigatória.
O tópico anterior, Classes de palavras, apresenta o método geral de classificação contextual. Aqui aprofundaremos somente a classe substantivo: suas classificações, flexões, usos e mudanças provocadas pelo contexto.
Ao final, você deverá conseguir:
- reconhecer o substantivo como núcleo potencial do grupo nominal;
- combinar classificações que pertencem a eixos diferentes;
- diferenciar gênero gramatical de sexo do referente;
- analisar singular, plural, aumentativo e diminutivo;
- identificar palavras e expressões substantivadas;
- explicar por que determinada ocorrência é substantiva.
Conceitos fundamentais
As classificações não são excludentes
Um substantivo não recebe uma única etiqueta. Ele pode ser classificado simultaneamente em diferentes eixos. Brasília, por exemplo, é próprio, concreto, simples e primitivo. Livraria pode ser comum, concreto, simples e derivado.

Leitura da imagem: escolha uma possibilidade em cada eixo aplicável. “Próprio” não se opõe a “concreto”; as oposições relevantes são próprio/comum, concreto/abstrato, simples/composto e primitivo/derivado.
Comum e próprio
O substantivo comum nomeia uma classe de seres ou entidades sem individualizá-los por si só: cidade, rio, professora, empresa. O contexto pode tornar o referente conhecido — a cidade em que nasci —, mas a palavra continua sendo um substantivo comum.
O substantivo próprio individualiza um ser ou entidade dentro de um conjunto: Recife, Amazonas, Machado de Assis, Universidade de Brasília. Em geral, nomes próprios são escritos com inicial maiúscula, mas a maiúscula é consequência da função, não prova suficiente. Inícios de frase e escolhas estilísticas também produzem maiúsculas.
O uso pode deslocar a classificação:
- Li Machado de Assis: o nome do autor representa sua obra por metonímia, mas permanece nome próprio.
- Ele é um dom-joão: o nome próprio deu origem a um nome comum, grafado com minúscula, que caracteriza um tipo de pessoa.
- Comprei uma gilete: uma marca pode lexicalizar-se como nome comum no uso, embora questões normativas possam exigir atenção à grafia e ao registro.
Concreto e abstrato
O substantivo concreto designa uma entidade concebida como existente por si, seja ela real, imaginária ou institucional: mesa, criança, fada, cidade, comissão. “Concreto” não significa necessariamente algo que podemos tocar. Anjo e sereia são tradicionalmente concretos porque são concebidos como seres.
O substantivo abstrato apresenta ação, estado, qualidade, sentimento ou conceito considerado separadamente do ser em que se manifesta: viagem, cansaço, beleza, esperança, liberdade.
O contexto decide casos ambíguos:
- A caça foi proibida. — caça nomeia a atividade: abstrato.
- O caçador trouxe a caça. — caça designa o animal capturado: concreto.
- A pintura exige paciência. — pode nomear a atividade: abstrato.
- A pintura está na parede. — pode nomear a obra: concreto.
Não use a regra “posso tocar?” como teste único. Ela falha com seres imaginários, instituições e palavras cujo valor muda no enunciado.
Coletivo
O substantivo coletivo é um substantivo comum que, mesmo no singular, designa um conjunto tratado como unidade: alcateia (lobos), arquipélago (ilhas), cardume (peixes), elenco (atores), biblioteca (livros, em uma de suas acepções).
Coletivo não é sinônimo de plural. Em a equipe chegou, equipe está no singular e normalmente leva o verbo ao singular. Já jogadores é apenas o plural de jogador. Além disso, um coletivo pode ir ao plural: duas equipes, vários arquipélagos.
O complemento pode ser necessário para esclarecer o conjunto: uma banca de examinadores, uma coleção de documentos. Evite decorar coletivos raros sem contexto; provas tendem a explorar sentido e concordância mais do que listas incomuns.
Simples e composto
O substantivo simples apresenta um único radical: flor, chuva, livreiro. Ter prefixo ou sufixo não o torna composto; livreiro continua com um radical lexical principal.
O substantivo composto apresenta mais de um radical: guarda-chuva, passatempo, couve-flor, segunda-feira. A presença de hífen também não é o único critério: girassol e planalto são compostos escritos sem hífen.
Essa classificação trata da estrutura, não da quantidade de palavras gráficas de maneira mecânica. Locuções como fim de semana podem funcionar como unidades nominais, mas não devem ser confundidas automaticamente com uma palavra composta na análise morfológica escolar.
Primitivo e derivado
O substantivo primitivo, dentro de uma família de palavras, não é formado de outra palavra portuguesa: pedra, livro, terra. O derivado forma-se a partir de outra base da língua: pedreiro, livraria, terreno.
“Primitivo” não significa historicamente original nem mais antigo. É uma relação sincrônica dentro do português. Uma palavra pode ser simples e derivada ao mesmo tempo, como livraria: um radical, mas formação a partir de livro. Também pode ser composta e derivada conforme a análise de sua formação.
Gênero gramatical
Todo substantivo do português pertence ao gênero masculino ou feminino, propriedade revelada pela concordância: o problema complexo, a análise cuidadosa. A terminação oferece pistas, mas não determina sozinha o gênero: o mapa, o planeta e o dia terminam em -a; a tribo, a foto e a libido terminam em -o.
Gênero gramatical não é o mesmo que sexo ou identidade do referente. A pessoa e a vítima são femininos gramaticais mesmo quando se referem a um homem; o indivíduo é masculino mesmo quando se refere a uma mulher.

Como usar o fluxo: identifique primeiro o gênero pela concordância. Somente depois verifique se o substantivo muda de forma ou exige uma palavra complementar para indicar o sexo do referente.
Quanto à forma usada para referir seres sexuados, a tradição escolar costuma distinguir:
- biformes: apresentam formas diferentes, como menino/menina, ator/atriz, boi/vaca;
- comuns de dois gêneros: uma mesma forma recebe determinantes distintos, como o estudante/a estudante, o colega/a colega;
- sobrecomuns: uma forma e um só gênero gramatical podem referir pessoas de sexos diferentes, como a criança, a vítima, o cônjuge;
- epicenos: nomes de animais usam tradicionalmente macho ou fêmea, como a onça macho/a onça fêmea e o jacaré macho/o jacaré fêmea.
Em usos reais, vocabulário, convenções sociais e preferências de designação podem mudar. Em questão normativa, observe a variedade e a nomenclatura solicitadas.
Número: singular e plural
O singular geralmente apresenta uma entidade ou uma classe sem marca de plural; o plural normalmente indica mais de uma entidade. A oposição, porém, não equivale sempre a contagem direta:
- A água é essencial. — nome de massa no singular;
- As águas do litoral estão frias. — plural que pode indicar porções, tipos ou extensões;
- O brasileiro gosta de música. — singular com valor genérico;
- Os óculos estão na mesa. — forma usualmente plural para um único objeto composto por partes.
Alguns padrões produtivos de plural:
| Final | Formação frequente | Exemplos |
|---|---|---|
| vogal ou ditongo oral | acrescenta-se -s | casa/casas; pai/pais |
-m | troca-se por -ns | item/itens; viagem/viagens |
-r ou -z | acrescenta-se -es | flor/flores; juiz/juízes |
-al, -el, -ol, -ul | em geral, troca-se -l por -is | animal/animais; papel/papéis |
-il tônico | troca-se por -is | funil/funis |
-il átono | troca-se por -eis | fóssil/fósseis |
-s em oxítona | acrescenta-se -es | país/países |
-s em paroxítona | forma frequentemente invariável | lápis/lápis; ônibus/ônibus |
-ão | pode formar -ões, -ães ou -ãos | nações; pães; cidadãos |
O final -ão exige consulta ao uso ou ao dicionário porque não há teste único capaz de prever todos os plurais. Algumas palavras admitem mais de uma forma registrada, às vezes com preferência de uso ou diferença semântica.
Nos compostos, a flexão depende da estrutura e da relação entre os elementos: couves-flores, guardas-civis, guarda-chuvas, beija-flores, pães de ló. Em vez de decorar uma frase geral para todos os casos, identifique quais elementos são variáveis e qual relação existe entre eles. Casos raros devem ser confirmados em fonte lexical confiável.
Grau: aumentativo e diminutivo
A tradição escolar apresenta o grau do substantivo em formas analíticas, com palavras separadas (casa grande, casa pequena), e sintéticas, com sufixos (casarão, casinha).
Essas formas não expressam apenas tamanho:
- Que filminho fraco! — pode transmitir avaliação negativa;
- Meu filhinho chegou. — pode marcar afeto, não tamanho;
- Ele comprou um carrão. — pode indicar admiração ou valor;
- Aquilo virou um problemão. — intensifica a gravidade.
Por isso, identifique o efeito de sentido no contexto. Há ainda uma ressalva teórica: muitos estudos tratam aumentativos e diminutivos formados por sufixos como derivação, não como flexão estrita. Em provas escolares, a nomenclatura “grau do substantivo” continua frequente; responda ao modelo pedido sem perder de vista o funcionamento semântico.
Como identificar ou aplicar
1. Leia o grupo inteiro
Comece pelo trecho completo. Em a rápida análise do processo, análise nomeia uma atividade tomada como entidade e organiza os termos ao redor.
2. Procure o núcleo nominal
Retire mentalmente os elementos acessórios:
aquelas duas análises cuidadosas do contrato
Sem aquelas, duas, cuidadosas e do contrato, permanece análises, o núcleo. Esse teste não deve destruir o sentido da frase; ele serve apenas para revelar a hierarquia do grupo.
3. Observe determinantes e concordância
Artigos, pronomes, numerais e adjetivos podem revelar gênero e número: estas decisões complexas. Contudo, não classifique uma palavra como substantivo apenas porque vem depois de artigo. O artigo pode substantivar outra classe: o belo, um não, o porquê.
4. Teste a substituição e a expansão
Um provável substantivo costuma aceitar expansão nominal:
- projeto → aquele projeto municipal aprovado;
- chegada → a chegada inesperada da equipe;
- sim → aquele sim definitivo.
O teste confirma que a ocorrência ocupa posição nominal, mas a análise final ainda depende do contexto.
5. Classifique em eixos separados
Faça perguntas independentes:
- é comum ou próprio?
- é concreto ou abstrato neste sentido?
- é coletivo?
- é simples ou composto?
- é primitivo ou derivado na família considerada?
- quais são gênero, número e eventual valor de grau?
Não force uma classificação quando a questão não fornece contexto suficiente ou quando há mais de uma análise registrada.
Exemplos comentados
Exemplo 1 — várias classificações ao mesmo tempo
A livraria reabriu.
Livraria é substantivo porque funciona como núcleo do sujeito. É comum, concreto no sentido de estabelecimento, simples e derivado de livro. Está no feminino singular.
Exemplo 2 — concreto ou abstrato depende do sentido
A construção da ponte demorou dois anos.
Construção apresenta o processo de construir e tem leitura abstrata.
A construção foi interditada.
Agora a palavra designa a edificação resultante e tem leitura concreta. A classe substantivo permaneceu; mudou a classificação semântica.
Exemplo 3 — substantivação
O impossível exige preparação.
Impossível costuma funcionar como adjetivo, mas o artigo o e a posição de núcleo fazem a ocorrência nomear aquilo que é impossível. Houve substantivação.
Recebemos um não definitivo.
O advérbio não foi tomado como nome de uma resposta e recebeu determinante e caracterização.
Exemplo 4 — gênero não equivale a sexo
A testemunha era um homem de cinquenta anos.
Testemunha é um substantivo sobrecomum de gênero gramatical feminino. O referente é identificado como homem pelo restante da frase. Não se deve criar uma forma feminina ou masculina inexistente apenas para alinhar gênero e sexo.
Exemplo 5 — coletivo e concordância
A comissão publicou o parecer.
Comissão está no singular, embora designe várias pessoas. Na construção neutra, o verbo concorda no singular com o núcleo. Outros padrões de concordância podem depender da estrutura e serão aprofundados no tópico próprio.
Exemplo 6 — diminutivo com valor afetivo
Minha avó guardava cada cartinha.
Cartinha pode indicar tamanho reduzido, mas nesse contexto também sugere afeto e valor emocional. Uma questão de interpretação pode cobrar esse efeito, não apenas o rótulo “diminutivo”.
Como aparece em provas
O substantivo costuma ser cobrado de forma integrada. A questão pode pedir que você:
- identifique o núcleo de um grupo nominal;
- compare a mesma forma em sentidos concreto e abstrato;
- reconheça substantivação provocada por artigo ou outro determinante;
- classifique um substantivo em mais de um eixo;
- escolha o plural adequado de palavra simples ou composta;
- reconheça gênero em palavras como personagem, testemunha e estudante;
- explique concordância a partir do gênero e do número do núcleo;
- interprete valor afetivo, depreciativo ou intensificador de aumentativo e diminutivo;
- avaliar mudança de sentido provocada por maiúscula, determinante ou contexto.
Em itens de substituição, confira três camadas:
- classe e função: a nova forma continua ocupando posição nominal?
- concordância: determinantes e caracterizadores continuam adequados?
- sentido: a troca preserva a referência ou cria outro efeito?
Uma alternativa pode apresentar plural formalmente possível, mas inadequado ao sentido do trecho. Outra pode reconhecer um substantivo e errar sua classificação semântica. Leia exatamente o que o comando solicita.
Pegadinhas frequentes
“Concreto” é aquilo que posso tocar
Esse atalho falha. Fada é tradicionalmente concreto porque designa um ser concebido como entidade; viagem pode ser abstrato como ação, embora produza experiências perceptíveis.
Um substantivo só pode receber uma classificação
As classificações pertencem a eixos distintos. Amazonas pode ser próprio, concreto e simples ao mesmo tempo. Coletivo também é uma subclasse de substantivo comum.
Toda palavra depois de artigo sempre foi substantivo
O artigo pode transformar outra classe ou expressão em núcleo nominal: o belo, o amanhã, um talvez. Classifique a ocorrência, não uma suposta classe permanente da forma.
A terminação revela o gênero
Terminações são pistas, não garantias. Compare o problema, a cama, o dia, a foto. Use determinantes, concordância e consulta lexical quando necessário.
Gênero gramatical indica sexo
Não necessariamente. A criança, a vítima e o indivíduo conservam gênero gramatical independentemente do sexo do referente.
Coletivo deve levar o verbo ao plural
O coletivo singular continua sendo núcleo singular em construções neutras: A multidão avançou. Concordância com ideias de pluralidade envolve condições próprias e não autoriza plural automático.
Todo plural em -ão termina em -ões
Há plurais em -ões, -ães e -ãos: nações, pães, cidadãos. Verifique a palavra específica e evite criar formas por analogia apressada.
Diminutivo sempre significa tamanho pequeno
Pode expressar afeto, ironia, desprezo, aproximação ou intensidade. O enunciado determina o valor.
Resumo para revisão

Revisão ativa: escolha um substantivo de uma frase real e percorra os cinco passos. Se a justificativa depender apenas do significado ou da terminação, procure também as relações sintáticas e morfológicas.
| Aspecto | Pergunta útil | Exemplo |
|---|---|---|
| reconhecimento | é o núcleo de um grupo nominal? | as decisões recentes |
| referência | comum ou próprio? | cidade / Salvador |
| existência | concreto ou abstrato neste sentido? | obra / construção como processo |
| conjunto | designa uma pluralidade como unidade? | equipe |
| estrutura | simples ou composto? | chuva / guarda-chuva |
| formação | primitivo ou derivado? | livro / livraria |
| gênero | masculino ou feminino pela concordância? | o mapa / a análise |
| número | singular ou plural; qual padrão se aplica? | papel / papéis |
| grau/sentido | há tamanho, afeto ou avaliação? | casa / casinha |
Antes de responder:
- localizei o núcleo e os termos ligados a ele?
- classifiquei cada eixo separadamente?
- considerei o sentido específico da ocorrência?
- distingui gênero gramatical de sexo do referente?
- verifiquei se plural ou grau produz algum efeito adicional?
Próximos passos
Retome Classes de palavras quando precisar comparar o substantivo às demais classes. Avance para Adjetivo, que explica a caracterização; para Artigo, que apresenta o referente; para Numeral, que expressa relações numéricas; e para Pronome, que acompanha ou representa o núcleo. Concordância reúne essas relações em estruturas nominais e verbais.
Ao estudar os próximos tópicos, preserve esta distinção: o substantivo tende a ocupar o núcleo; determinantes, quantificadores e caracterizadores constroem relações ao redor dele.
Referências para aprofundamento
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo.
- AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa.
- ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa.
- Nomenclatura Gramatical Portuguesa — Portal da Língua Portuguesa.
- Subclasses do nome — Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.